VIDA MARINHA - O Continente Antártico

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Texto Armando de Luca Junior PDIC 75001

No período em que estagiava no Instituto Oceanográfico da USP, recebi o convite de meu orientador, Prof. Dr Luiz Roberto Tommasi, para participar da IV Expedição ao Antártico, sendo que, é óbvio, aceitei na mesma hora. Embarcamos em um Hércules e, depois de duas escalas técnicas, em Pelotas e Punta Arenas (Chile), aterrissamos em uma base chilena na Ilha Rei George. Dali, para o Navio Oceanográfico “Prof. Wladimir Besnard”, que nos aguardava.

Na época, ainda não eram feitos mergulhos pela equipe brasileira e os trabalhos dependiam da coleta de amostras de material com auxílio de aparelhos para posterior análise em laboratório. Os pontos de amostragem ficavam ao longo da Península Antártica, sendo atingidos sempre que as condições de mar permitiam (mar bravo, daqueles que a gente se arrependia por não ter ficado aquele verão em Ubatuba, eram freqüentes).

Aparelhos para amostragem eram lançados às águas límpidas, muito azuis e geladas - entre 0ºC e 1ºC – por onde navegávamos e traziam para bordo formas de vida até então pouco conhecidas por nós e, para surpresa de muitos, em uma variedade e quantidade enormes. As cores dos animais, especialmente aqueles do bentos (vivem relacionados ao fundo), mostravam-se surpreendentemente belas. Foto 1

Em uma armadilha semelhante às utilizadas para capturar siris, utilizando sardinha como isca, surgiram as primeiras surpresas: uma competição pelo mesmo alimento entre espécies muito distintas entre si. Na mesma amostragem foram capturados moluscos gastrópodes (caracóis), pequenos peixes, ofiuros (ou estrelas-serpente um parente das estrelas-do-mar) e um verme do grupo dos Nemertíneos (engolindo uma sardinha na foto). Foto 2 

Outras amostragens traziam para bordo formas inusitadas de estrelas-do-mar com inúmeros braços (foto 3) ou com o corpo muito mole , crustáceos anfípodes (parentes das “pulgas” da areia)  e isópodes (parentes das “baratas-de-praia” que vivem nas rochas à beira-mar) , pantópodes – pouco conhecidos mas comuns em todos os mares – que se assemelham a aranhas (foto 4) e peixes com formas incomuns para nossos olhos, como é o caso do “peixe-gelo”, uma espécie transparente que não tem hemoglobina no sangue (foto 5).

Esta rápida abordagem permitiu perceber o quanto é rica a fauna subaquática antártica e também a importância de lutar por sua preservação. Os interesses dos países participantes do Tratado Antártico são distintos, mas enquanto esse tratado perdurar, existirá uma garantia de que o mais selvagem dos continentes continue mantendo todas suas características originais, com a natureza pura e quase que intocada onde, apesar de todas adversidades presentes, os seres vivem em profusão e harmonia. Pelo menos até quando o homem   não desequilibrar aquilo que a natureza levou milhares de anos para construir.

O Continente Antártico é formado por um solo de origem vulcânica com montanhas que ultrapassam 3000m acima do mar e quase na sua totalidade coberto por gelo, fato que o diferencia do Pólo Norte, que é composto apenas por uma camada de gelo flutuante sobre o oceano.

As condições ambientes não permitem o desenvolvimento de vegetação mais desenvolvida, sendo que esta se limita a musgos e liquens que formam um tapete verde nas áreas da orla quando ocorre o degelo do verão. Em uma dessas áreas a equipe de Cousteau reconstituiu um esqueleto de baleia (foto 6). Isso foi possível porque antes do Tratado Antártico a caça às baleias era feita de forma intensiva por vários países que inclusive mantinham bases de caça e já iniciavam o processamento do produto no local. Devido à falta de uma vegetação mais desenvolvida, existem limitações para a diversidade de fauna terrestre, sendo que esta é formada basicamente por aves e mamíferos que direta ou indiretamente dependem do oceano para sua alimentação.

Assim, durante nosso deslocamento pelas diversas áreas onde foram estabelecidas estações de coleta de material biológico, pudemos encontrar vários exemplos das belezas das faunas terrestre e marinha Antártica.

Com o fim da caça às baleias, hoje podemos observá-las nadando tranqüilamente à busca de seu alimento predileto, o “krill” (aquele crustáceo semelhante a um camarãozinho) . Ocasionalmente, passando por blocos de gelo que derivavam pelo mar, encontrávamos também sonolentas focas que, provavelmente bem alimentadas, descansavam com toda calma.

Nos momentos de descanso, quando o navio ancorava em algum ponto próximo a uma base de pesquisas, desembarcávamos em botes para passeios pelas maravilhosas paisagens geladas, encontrando também focas dormindo sobre o gelo (foto 7), um nervoso leão-marinho que foi incomodado em seu sono e levantou-se ficando em postura agressiva (foto 8) e até grupos de elefantes-marinhos descansando uns ao lado dos outros.

As aves também são abundantes sendo que, é lógico, o destaque fica com os pingüins. Em certas áreas, essas aves elegem o local para fazer seus ninhos, ter e cuidar de seus filhotes, são as pingüineiras (foto 9). Os pais se revezam para buscar alimentos no mar, ficando sempre um deles cuidando da prole (foto 10).

Mas, nem tudo é calmo para os pingüins. As “skuas” (foto 11), aves com hábito rapinante, sobrevoam as pingüineiras à busca de pais distraídos que, em um momento de descuido, permitem que elas obtenham seu alimento predileto: ovos e filhotes de pingüins. Nem por isso podemos julgar as “skuas” como cruéis, elas estão cumprindo seu papel no ecossistema e fazendo com que o equilíbrio e harmonia sejam mantidos.

Assim, espero ter passado a vocês um pouco sobre esse exuberante Continente, selvagem, intenso e encantador.

Abraços molhados a todos e bons mergulhos.

Armando de Luca Junior é biólogo e Instrutor PDIC em Marine  Life.