VIDA MARINHA - O branqueamento dos corais

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Texto Armando de Luca Junior PDIC 75001

 

Os recifes de corais constituem um dos mais importantes ecossistemas marinhos por várias razões, entre elas por abrigar, fornecer alimentos e área de reprodução para uma grande variedade de espécies.  Estes ecossistemas são muito frágeis e sofrem com a ação humana em diversos aspectos, levando a sua degradação.

Os corais mantêm uma associação simbiótica com várias espécies de algas denominadas zooxantelas. Estas vivem entre seus tecidos e, além de lhes conferir as belas cores que tanto apreciamos, contribuem produzindo matéria orgânica através da fotossíntese e,  em contrapartida, recebem dos corais os nutrientes essenciais. Nas espécies hermatípicas, aquelas que fazem parte da construção dos recifes, as algas contribuem também com a fixação do cálcio que compõe o esqueleto calcário. 

A perda da coloração característica, levando ao branqueamento dos corais, é devida a um processo não completamente elucidado onde as zooxantelas são expelidas dos tecidos do coral devido a tensões ambientais naturais ou até mesmo provocadas pelo homem. A coloração dos corais pode ainda apresentar uma variação sazonal devida às mudanças ambientais naturais. O branqueamento pode levar as colônias de coral à morte ou, em alguns casos, a uma diminuição de produtividade que é recuperada lentamente com o tempo. Isso tudo depende muito da intensidade e da duração das alterações ambientais ocorridas. Nesse ínterim, a pesca, a poluição ambiental e até mesmo a atividade de mergulho turístico, se praticado inadequadamente, podem aumentar o estresse e interferir na recomposição das colônias. 

Uma das causas do mecanismo de branqueamento tem sido atribuída ao aquecimento global, quer ele seja ou não provocado por atividades humanas como o efeito estufa (relacionado à queima de combustíveis, por exemplo). Além do aumento da temperatura das águas, também podem ser causas do branqueamento o excesso de radiação ultravioleta, baixa luminosidade, aumento da turbidez da água, deposição de sedimentos sobre as colônias, variações da salinidade além das normais, poluição ambiental e até mesmo algumas formas de doenças (figura 1, onde foto de Paul Human mostra coral cérebro caribenho afetado por “black band disease”, uma doença que mata gradativamente os pólipos, deixando a colônia com branqueamento).  Porém, nos últimos anos, a principal causa de branqueamento em grande escala tem sido atribuída às elevadas temperaturas das águas superficiais. Um aumento de 1ºC acima da média de temperatura máxima habitual por algumas semanas, pode desencadear um processo de branqueamento e morte. Com certeza, mudanças climáticas constituem a maior das ameaças aos recifes de coral em escala global. A figura 2, extraída de publicação da UICN e WWF, mostra áreas onde o problema foi detectado no período de 1988 a 2000, segundo World Conservation Monitoring Centre e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Um fato interessante verificado e provavelmente relacionado à tolerância específica aos estresses ambientais, foi que os corais ramificados muitas vezes tornavam-se os primeiros a sentir as conseqüências das alterações ambientais, sofrendo o branqueamento em primeiro lugar. Os corais incrustantes, formadores de estruturas mais encorpadas, resistiam mais e só sofriam branqueamento se as condições de estresse perdurassem por períodos mais prolongados. Essa fato pode ser notado na figura 3, onde uma colônia ramificada do gênero Acropora apresentou branqueamento e, ao seu lado, outra colônia, esta incrustante, do  gênero Porites, não mostrava nenhum sintoma (foto de Arjan Rajasuriya em publicação da UICN/WWF).

Um caso de branqueamento foi observado em 2001 nas águas do sudeste brasileiro, no Parque Estadual Marinho da Laje de Santos, onde no verão as águas superficiais apresentaram um aumento de temperatura superando a média máxima encontrada na área. Até os 10m de profundidade a temperatura chegou aos 28ºC e os corais sentiram o estresse, expelindo suas zooxantelas. Outros organismos também sentiram a severidade das mudanças climáticas, como por exemplo os ouriços-do-mar que perdiam seus espinhos. Abaixo dos 10m de profundidade, onde havia uma termoclina que diminuía bastante a temperatura, os corais não apresentaram o problema. Durante o verão essa ocorrência se repete na área (com intensidade variável de acordo com o ano) e a termoclina se forma pela chegada das ACAS (Águas Centrais do Atlântico Sul), uma massa de água que se forma no sul da América do Sul entre 100 e 500m de profundidade, aflorando na região e promovendo um importante aporte de nutrientes. Até o momento não foi registrada morte de colônias significativa provocada por esse fenômeno, sendo que a recuperação gradativa se deu em tempo relativamente curto (em cerca de dois meses).

De toda forma, preocupa muito como será futuramente a capacidade de recuperação dos recifes de corais, já que os impactos ambientais têm sido sucessivos, muitas vezes aumentando também de intensidade e sendo agravados pelas ações do homem. Com certeza essa capacidade é afetada pelos eventos seqüenciais e até quando será possível a recomposição dos recifes é desconhecido  e imprevisível. Devido a esses fatos, existem projetos de manejo e recuperação de recifes que vêm sendo desenvolvidos em várias partes do mundo, como na Austrália, Havaí, Caribe, Oceano Índico, etc. Nas Filipinas, por exemplo, desde 1997 existe uma ação governamental incentivando as comunidades locais a reabilitar os recifes, transplantando fragmentos de corais vivos para áreas onde a cobertura coralina era escassa. Além de oferecer trabalho a essas comunidades, a recomposição dos recifes contribuiu para a volta das outras espécies que habitam os recifes, inclusive peixes com importância comercial, incrementando a pesca artesanal e não predatória. Na figura 4, observa-se o aspecto geral de área com cercados abrigando os fragmentos de coral vivos visando à recomposição do recife, em foto de Thomas Heeger publicada por UICN/WWF).

No Brasil ainda há muito a ser pesquisado e o manejo dos ecossistemas marinhos visando a sua utilização sustentável deve ser um dos objetivos principais dos pesquisadores para garantir a integridade futura do ambiente marinho. 

Armando de Luca Junior é biólogo e Instrutor PDIC em Marine  Life.