VIDA MARINHA - A invasão de espécies exóticas

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Texto Armando de Luca Junior PDIC 75001

São chamadas de exóticas as espécies oriundas de localidades diferentes daquelas em questão. Quando uma espécie exótica chega a uma localidade, seu sucesso vai depender das condições ambientes. Se seus requisitos para sobrevivência forem atendidos, a espécie exótica poderá viver normalmente. 

Quando isso acontece, o grande problema que existe consiste no que representa a introdução dessa espécie em um ambiente novo. Qual será o nicho ocupado por ela? Será que as espécies nativas sofrerão impacto negativo com essa nova presença? Essa é uma preocupação constante na mente dos ambientalistas do mundo todo.

Para passar uma idéia mais clara do que isso significa, casos de introdução de espécies exóticas muitas vezes refletem em impactos difíceis de serem contornados. Ilhas muitas vezes são “brindadas” com novos habitantes, como vegetais para consumo humano e ratos, que com o tempo freqüentemente competem com as espécies nativas e acabam por ocupa seu lugar, desequilibrando o que a natureza levou milhares de anos para compor.

Nas águas dos mares o problema não é diferente. Navios utilizam a água do mar para encher seus tanques de lastro e partem de seus destinos para as mais diversas partes do mundo. Na água, fazendo parte especialmente do plâncton, encontram-se ovos, larvas e diminutas formas dos mais diversos representantes da biota marinha, que são dispersos naturalmente pelas correntes marinhas. Ter seus membros dispersos faz parte de um importante processo natural que contribui com o sucesso das espécies em sua própria existência. 

Porém, o “auxílio” do homem nesse processo natural pode trazer implicações desconhecidas. Para citar casos muito próximos de nós, podemos lembrar dos “corais moles” que hoje estão se desenvolvendo no substrato rochoso em Arraial do Cabo no Rio de Janeiro. Sabemos que trata-se de uma espécie exótica e que deve ter chegado ao local trazida nos porões de navios. O coral está se desenvolvendo e por hora não se pode afirmar qual impacto trará para a biota local. Estará ocupando o espaço de outras espécies? Para nós mergulhadores pode ser (e é!!!) mais um atrativo que proporciona bons momentos durante os mergulhos. Mas e para o ambiente, o que representará futuramente? (Fotos 1 e 2)

Outro caso próximo encontramos na Ilha Grande, onde o “coral laranja” (Tubastraea coccínea) está proliferando e parece que muito bem adaptado (foto 3). Alguns anos atrás fotógrafos sub do mundo todo mergulhavam nas águas de Bonaire durante a noite para capturar imagens de seus belos pólipos abertos. Hoje podemos fazer isso em nosso quintal, mas será que não tem nenhuma espécie nativa sendo prejudicada nessa questão? 

Ainda posso citar outro coral, do grupo dos zoantídeos (foto 4) que está começando a ocupar áreas antes ocupadas pelo conhecido octocoral Carijoa sp (foto 5) nas rochas da Laje de Santos, onde mergulho desde os anos 80 e pude acompanhar de perto as mudanças. Hoje nosso coral nativo está perdendo seu espaço para o exótico invasor. Que tipo de alteração pode ocorrer na composição das comunidades locais também não se conhece.

 

 

Os casos acima citados provavelmente são decorrentes do transporte acidental por navios e, aparentemente não há no momento atitude economicamente viável que possa ser tomada para se evitar o problema. Uma forma do problema de introdução de espécies cujo controle está mais ao alcance e para o qual podemos cooperar através de simples orientação, trata-se da soltura de animais exóticos criados em aquários. Muitos aquaristas, quando por alguma razão não podem mais manter seu hobby, têm o hábito de soltar os habitantes de seu aquário diretamente no mar. Em  algumas regiões da costa atlântica dos EUA, por exemplo, começaram a aparecer peixes-leão, importantes predadores que competem ferozmente com outra espécies locais e dotados de nadadeiras com peçonha que podem atingir mergulhadores incautos. Descobriu-se que aquaristas “enjoados” desses peixes, que foram substituídos por outros, os soltavam no mar. Trata-se de uma atitude irresponsável, embora aparentemente mais “humana” para com os peixes. Aqui vai uma opinião muito particular e que pode gerar controvérsias, mas apesar de achar maravilhoso ficar diante de um belo aquário, prefiro observar a vida livre em seu ambiente natural, sem precisar aprisioná-la entre paredes de vidro subtraindo-a da natureza. Que tal estimular todos a fazerem o mesmo? Afinal um convite para bons mergulhos dificilmente é recusado.

A comunidade do mergulho também pode contribuir, registrando suas observações através de imagens e buscando sempre uma aproximação com a comunidade científica que carece dessas informações. Sempre que registrarem suas imagens, não esqueçam de anotar data, local e profundidade pelo menos.

Tenham ótimos mergulhos.

 

Fotos da capa e fotos 1 e 2 gentilmente cedidas por Ary e Gustavo Amarante

 

Armando de Luca Junior é biólogo e Instrutor PDIC em Marine  Life.